António Loureiro – do Aluno ao Professor

 

C.J: Professor, é um prazer tê-lo como entrevistado do Jornal Entre Aspas. Vamos começar a nossa conversa não apenas com o professor de História António Loureiro, mas também com o ex-aluno António Loureiro.

C.J: Existe alguma lembrança especial dos tempos em que se sentava do outro lado da carteira?

P.L: Muitas e não só como aluno. No que respeita aos exames nacionais, adquiri hábitos que ainda hoje utilizo, porque aprendi com os outros professores o ritmo de trabalho que tinham nessa altura.

C.J: Como é que recorda os antigos professores de História?

P.L: Ainda mais teóricos do que eu sou atualmente, apesar de ser dessa geração. Os programas eram totalmente diferentes, hoje há uma abertura muito diferente a nível da História, nomeadamente a nível político. No meu tempo, não se podia falar em política, era um perigo. Portanto, os professores de História tinham mesmo que ter muito cuidado.

C.J: Atualmente, os estudantes estão imersos num mundo bastante digital. Acha que por esse motivo falar de História em sala de aula tornou-se mais difícil?

P.L: Julgo que não. É uma questão de comunicação e, de facto, as novas tecnologias ajudam muito, mostram a realidade dos factos. Mas, honestamente, não vejo uma diferença significativa que tenha diretamente que ver com os conhecimentos que os alunos possam adquirir.

C.J: Muitos alunos não se reveem no modelo de ensino das escolas públicas. O que é que um professor deve (e pode) fazer para tentar alterar essa realidade?

P.L: Primeiro, não vejo exatamente a questão do ponto de vista de escola pública. Julgo que a questão quer dizer o ensino particular e o ensino público. Posso dizer que tenho experiência em ambos. Antes de vir para o ensino público, estive quatro anos num externato e verifico que os métodos que usava nessa altura são exatamente os mesmos que utilizei e utilizo no ensino público. É, contudo, um facto que o ensino privado, por vezes, pode selecionar os alunos e não é fácil, por exemplo, um aluno com determinadas deficiências aceder ao ensino privado. Pelo contrário, no ensino público, não existe escolha possível, um cidadão quer ir para essa escola e vai, ponto final.

C.J: Voltemos ao universo da História. Identifica alguma mudança importante no ensino da História dos últimos anos?

P.L: Sim e tem que ver com as questões anteriores, tal como o uso das tecnologias, a alteração dos programas, entre outras. Há efetivamente algumas alterações base.

C.J: Que conteúdos perderam a sua força e quais os mais contemplados pelo currículo escolar da disciplina de hoje?

P.L: Na generalidade, é muito idêntico, à exceção daquele aspeto das situações políticas que aconteciam antes do 25 de abril. Após esse período, os currículos sofreram várias alterações e passaram a dar, e muito bem, a predominância à História de Portugal e só depois à História Mundial, como por exemplo os aspetos das civilizações que se impuseram ao longo dos séculos.

C.J: Desinteresse do aluno, salários baixos, formação lacunar do professor, violência na escola, infraestrutura comprometida. Estas são algumas das dificuldades enfrentadas por muitos professores. Para o senhor professor, qual o maior obstáculo para o desenvolvimento da educação no país?

P.L: Em primeiro lugar, o problema do desinteresse do aluno vai implicar, e muito, na diminuição do sucesso, porque as exigências também são diferentes. Enquanto há alguns anos, um aluno, por exemplo do nono ano de escolaridade, tinha que ter exames nacionais a todas as disciplinas e havia uma preparação mais exigente, agora, como é uma avaliação, digamos mais próxima do aluno, por vezes, este não valoriza tanto. Ainda em relação a este aspeto, nota-se perfeitamente que temos melhores alunos quando eles têm em casa uma retaguarda que os ajuda muito e, infelizmente, não são a maioria. Acresce a falta de objetivos de futuro que leva o aluno a perguntar-se a si próprio “O que é que eu vou fazer no futuro?”. O sistema em si, na minha opinião, não está correto, porque um aluno pode “matar-se” a estudar ou não que passa de ano na mesma. Em relação à violência na escola, felizmente, na minha vida, só estive em duas escolas, sempre nesta zona da província, onde não podemos falar em violência por parte dos alunos se compararmos com escolas com outras realidades. Apesar de nunca ter estado em escolas problemáticas, conheço algumas situações e, como tal, posso dizer que a nossa escola é uma escola calma e, embora vão surgindo determinadas situações, noutras escolas possivelmente passariam sem se dar conta delas.

C.J: Nos últimos dois anos, o professor tem vindo a desempenhar um papel importante para o nosso agrupamento. Qual o papel do provedor do aluno?

P.L: O provedor do aluno tem um papel fundamental, pois faz uma abordagem aos alunos em que existe sigilo daquilo que é comunicado ao provedor. Consiste, posteriormente, numa tentativa de resolver os problemas com os diversos setores, desde a Direção até outras entidades, para tentar, de alguma maneira, melhorar a situação proposta pelo aluno. Ou seja, o provedor está sempre mais do lado do aluno do que do lado das outras entidades.

C.J: Que tipo de assuntos podem ser expostos ao provedor do aluno?

P.L: Todos aqueles assuntos que o aluno ache que não estão bem ou, pelo contrário, que já estão bastante bem, mas que julgam que podem ser melhorados. Vai desde o comportamento ao cumprimento de regras, passando pelo problema das instalações. Enfim, um conjunto de situações que o Provedor tenta resolver. Infelizmente, a maior parte dos problemas não são resolvidos, como todos nós sabemos, por razões financeiras.

C.J: Sabemos que está a passar a uma nova etapa da sua vida pessoal e profissional. Que mensagem gostaria de deixar à comunidade escolar?

P.L: Que toda a comunidade escolar reveja a situação em que se encontra, que faça uma análise profunda do que está a acontecer, para prever um futuro de grande melhoria do conhecimento das escolas.

José Henrique Ferreira 9.ºA

Fotografia: Lara Ribeiro 9.ºA

(Clube de Jornalismo)

 

 

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