
EA: Professora, é um prazer tê-la como entrevistada do Jornal Entre Aspas. Com que idade é que começou a escrever?
L.V: Deixa-me dizer-te que é um prazer estar aqui convosco. Muito obrigada pelo vosso convite. Foi um prazer estar aqui com este público maravilhoso, com professores que me receberam tão bem, com atividades muito ricas do ponto de vista cultural, do ponto de vista lúdico, também muito atraentes, e está a ser para mim um privilégio estar aqui nesta escola. Comecei a escrever bastante nova. Eu escrevia e guardava, pois sempre gostei muito de escrever. Qualquer coisa que observasse durante um ou vários dias, eu escrevia e registava e depois podia surgir uma história ou não, podia surgir um episódio ou não, uma crónica ou não, mas comecei já há bastante tempo.
EA: Escreve um pouco todos os dias ou depende da inspiração?
L.V: Depende sobretudo do tempo que eu tenho e, infelizmente, eu não tenho tempo para escrever todos os dias, só mesmo aquela escrita obrigatória ou a escrita de profissão.
EA: Tem alguma meta diária?
L.V: Não, não tenho. A única meta diária que eu tenho é para o trabalho obrigatório de escrita, aquele trabalho a que a escola me obriga, mas não é dessa escrita que estamos a falar. No que respeita à escrita por prazer, deixo-me levar pela vontade, pelo impulso.
EA: Como é que define o seu processo de escrita?
L.V: Eu acho que o meu processo de escrita é um pouco ligado à articulação da observação, à reflexão e depois à transformação do que surge. É também um espelhamento, pois eu reconheço-me numa boa parte da escrita.
EA: Como é que lida com os bloqueios de escritor?
L.V: Às vezes forço um bocadinho esse bloqueio, outras vezes espero, aguardo por um outro momento, porque existem, efetivamente, esses bloqueios de escritor.
EA: Quantas vezes é que a professora revê os seus textos até considerar que eles estão prontos?
L.V: Tenho a confessar que, muitas vezes, eu própria digo para me tirarem os textos da mão, porque se não eu nunca mais arranjo a versão final. A primeira vez é um pouco ao correr da pena, é fluido. Costumo deixar um certo tempo e depois vou rever uma segunda vez, mais ao nível da narrativa e da estrutura. Depois, os pormenores corrijo-os várias vezes. Posso dizer que sou um pouco perfecionista e nunca acho que estejam completamente bem.
EA: Como é que lida com a tecnologia, escreve os rascunhos à mão ou no computador?
L.V: Sempre à mão. Costumo dizer, inclusive aos meus alunos, que, sem uma folha de papel e uma esferográfica, eu não consigo pensar. Essa é a minha técnica de foco, de concentração, preciso de uma caneta e de um papel, depois passo a computador.
EA: De onde surgem as suas ideias?
L.V: Dos sítios mais variados. Ainda hoje, aqui, a este público maravilhoso, eu disse que de vez em quando acontece-me estar na cozinha, a preparar uma refeição, e surge-me uma ideia de última hora e apetece-me escrever. Eu vou num instante ao escritório e escrevo. Tenho sempre um caderno comigo, que anda na minha carteira, a maior parte das vezes tento reter as ideias quando elas surgem, mas algumas datas ou pormenores eu escrevo.
EA: Qual o maior desafio que encontrou no processo de escrita?
L.V: O maior desafio que eu já encontrei num processo de escrita foi ser obrigada, por um compromisso que tinha assumido para a apresentação de um livro, a escrever um episódio. Enfim, num momento pessoal muito triste, a perda de um familiar, senti-me bloquear, mas sabia que tinha que escrever obrigatoriamente. Não estava com a minha mente realmente capaz, mas tanto forcei que consegui.
EA: Além de escritora, é também professora. Como é que consegue conciliar o tempo que tem que dedicar às duas atividades?
L.V: Nem sempre é fácil, porque a escrita exige o seu tempo e a profissão de professora exige também muito tempo. Mas, sabes, quando se gosta realmente de uma coisa, consegue-se sempre um bocadinho de tempo, pode não ser aquilo que nós queremos, mas conseguimos sempre um bocadinho. Ainda há pouco acabei de dizer que alguns episódios de Zara e Pirata dos Açores surgiram durante as férias.
EA: Que projetos tem preparados para este ano?
L.V: Se calhar mais um ou dois contos. Tenho, como já te confessei, algumas coisas escritas, vou escrevendo e depois vou guardando. Para mim, o prazer é escrever. Quando eu estou a escrever, não estou a pensar em publicar, estou única e simplesmente a pensar em escrever, eu quero reter aquilo. Depois, se vai ser publicado ou não, isso é o que menos me interessa, acima de tudo quero registar. Já tenho algumas coisas registadas, algumas acho que para já não têm muito interesse, outras estou a considerá-las interessantes, mas ainda vou rever uma, duas, ou mesmo dez mil vezes. Mas, sim, ainda tenho mais um ou outro conto ou narrativa com a ideia de publicação.
EA: Agradeço, professora, a disponibilidade para a realização desta entrevista e desejo-lhe, em meu nome e da nossa Escola, muito sucesso!
José Henrique Ferreira
Clube de Jornalismo